Pelo norte e pelo leste eis um transporte alternativo muito usado.
E eu a caminho de uma reunião de mulheres em Farim – norte de Bissau. Os meus pés já doíam e o calor era imenso….
E a electricidade foi-se. Esta imprevisibilidade não deixa planificar ou organizar seja o que for. Ainda tento continuar a trabalhar no computador e o suor vem, escorrega e, cai no teclado. Limpo o rosto com a toalha que está na cadeira mas o sal do suor faz-me arder os olhos e, desisto.
Procuro na casa o entrar e o passar da leva brisa de fora. Fico no entre janelas e ali me instalo com o meu computador, sem o menor movimento.
Olho para as folhas do mangueiro que se movimentam preguiçosamente e alargo o meu ouvir aos sons que entram por mim adentro.
Trok.. trok… são os camiões que fazem este caminho do porto até a algum lugar. É a campanha do caju que muda temporariamente os sons deste país;
Num carro parado ouço o rádio. Está muito alto. Há uma notícia sobre o mundial de futebol… qualquer coisa sobre Mandela;
Há vozes altas na rua. Alguém discutindo… naquele tom agressivo que não deixa espaço para o apaziguamento;
Ouvindo a troca de saudações, aquelas longas saudações daqui… Como está o corpo? Como está a família? Como estão os meninos? Como está a casa? – interminável mas, uma feliz pausa, na sombra, no lento andar debaixo deste sol abrasador.
Gargalhadas de crianças. Talvez daquelas meninas de sorriso iluminado que vendem todo o dia e pela noite dentro, um pratinho de amendoins.
Pum… pum… é a faca ou cutelo a cortar a carne de porco que há pouco chegou ao restaurante. O som é arrepiante.
Chega-me um som cristalino, suave. Vou à janela e eis a água a sair do cano, debaixo das raízes do mangueiro. Finalmente água. Há 3 dias que não havia água. E eu, tentando economizar a água que tinha, usando duas ou três canecas de água para tomar banho. As empregadas do hotel iam buscar água a um lugar longe. Chegavam, de manhã, com o corpo cansado e suado.
A bateria do meu computador já está fraquita. Continuo neste entre janelas, esperando que chegue a electricidade...A noite está sobre Quinhamel. Uma lua que eu nunca sei se é cheia ou nova toca o rio fazendo uma estrada de luz.
Há o coaxar dos sapos. Pássaros da noite, tornando-a de dia - movimento e som. Uma coruja com os seus grandes olhos fixou-se em mim, quieta como se lá não estivesse. As árvores, erguendo-se majestosas e espelhando-se no rio, testemunhas centenárias de todo este movimento e som nocturno. Não há nenhum som que da natureza não seja.
Pego num balde com água e vou por entre as árvores e lavo-me e a água que pelo meu corpo passa vai para a terra, alimentando-a. Brincando com a água nas minhas mãos rego as árvores. Brinco e rio-me, do que a natureza estará pensando de mim.
Vou até ao rio para me sentir nesta simbiose perfeita. Saúdo o deus do rio.
A noite tem sobre mim este mistério de protecção.
O carro há-de chegar para nos levar a Bissau. Passam e passam as horas. Neste longo entretanto vamos conversando pela noite adentro, eu e a Arasi. As crianças estão dormindo, cansadas de tanto brincar durante todo o dia.
Noite já alta, chega o carro.
De carro tem apenas quatro rodas, um motor e uma chapa bem velha.
Bateria está mal, temos que o colocar numa descida para apanhar balanço. Os máximos são os mínimos pela estrada dentro. O tablier completamente às escuras. Os amortecedores são ferros sobre ferro. A direcção guina para a esquerda e travão de mão, não há, já não falando da ausência do cinto de segurança. Cinquenta quilómetros à nossa frente.
O carro vai andando, cortando a noite, passando pelo “chão” de Papel (território do grupo étnico Papel). As grandes árvores vão deslizando pelos meus olhos e o mato profundo, bem além. As crianças acordaram e todos vamos de olhos bem abertos, sentindo o vento quente nos rostos.
Todo o mistério do chão de Papel acompanha-nos nesta viagem pela noite. Sinto-me bem, apesar dos receios sem motivo de toda a força deste “chão”. Aspiro o ar, olho a luz viajando connosco e assim vamos absorvendo quilómetro a quilómetro, lentamente porque luzes quase não temos.
E porque o que não tem remédio, remediado está este velho carro já cansado da vida e respeitando-o na sua velhice mas curvando-me à generosidade de conseguir dar-nos ainda uma viagem, mesmo atribulada – as minhas mãos iam dando-lhe força para mais um quilómetro a vencer.
E assim cheguei à minha casa, tarde ou de manhã. Cheguei tarde de noite? Ou de manhã muito cedo?
Precisava de comprar uma resma de papel e assim saí a caminho do supermercado. Normalmente compro as coisas em frente ao hotel, numa pequena loja dos mauritanos – mais conhecidos pelos “narres”. Perguntando a razão deste nome, alguém me explicou que a palavra “narre” significa fogo e que em tempos idos os mauritanos, a cavalo, ao invadir o norte da Guiné, incendiavam as casas mandando tochas de fogo. Será verdade? Não sei. História contada.
Bem, e aí fui andando para o supermercado. Calor intenso com uma humidade pegajosa.
Ao chegar, alguém chamou o meu nome – era uma jovem mulher que me conhecia, vendedora de fruta, a quem sempre comprava belíssimos mangos e papaias. Há 7 anos atrás era menina, tinha 12 ou 13 anos. Perguntou-me por onde tenho andado, porque há muito tempo que não me via. Tinham passado anos. Disse-lhe que tinha estado em Portugal e que agora estava aqui por alguns meses. Queres fruta? – perguntou-me ela. Não minha querida, estou no hotel. Não preciso. – respondi eu.
Apesar da minha negativa o sorriso dela iluminou o seu rosto. Rosto bonito.
Está grávida. Uma barriga bonita. Tem agora 20 anos e espera vir a ter uma menina.
Entrei, comprei a resma e saí. Ela estava à porta à minha espera com um saco de plástico e deu-mo. Abri. Era fruta. Queria recusar porque era o seu ganha-pão. Ela insistiu, dizendo que era um presente para mim. Aceitei. Abri o saco. Eram bananas, uma papaia e 4 mangos. Fiquei emocionada. Dei-lhe um beijo e agradeci.
Subi a rua a caminho de casa e os meus olhos estavam embaciados.
A generosidade dos que menos têm – o prazer de oferecer, a partilha, a saudade, a ternura!
Fatumata Djaló, quisera eu poder dar-te um mundo melhor.
Os meus companheiros de todos os dias. Abro a janela – e lá estão, pacientes como se todo o sentido da vida passasse por eles.
Têm um caminhar estranho, vacilante. Parece que a terra não lhes pertence e é no ar que mostram toda a sua magnificência. Abrem as suas asas negras ao vento, mesmo à mais pequena brisa e, são donos do mundo.
Com o calor ficam quietos, bem quietinhos, procurando a mais pequena sombra.
Em frente à minha janela, no outro lado da rua, há uma lixeira. Lugar deles partilhado pelos cães e pelo gatos da rua.
Lixeira de restos do restaurante, e eu pensando porque não colocam o lixo no contentor, bem perto que está? Dizem que o contentor está cheio de lixo. Será?
Na verdade é esta lixeira que dá de comer aos djugudés, aos cães e aos gatos. Bendita sejas!
E há uma hierarquia, para mim incompreensível, entre estes diferentes bichos: ora comem uns, ora comem outros – e quando não estão a comer, esperam pacientemente a sua vez. Por vezes se juntam – outras vezes não.
Às vezes aproximo-me deles e afastam-se. Confiança em humanos, não têm. Por vezes eu também não!
E lá estão… sentados no esqueleto de uma construção inacabada. Olham para a minha janela, volteando os pescoços sem penas. Imagino que me observam, curiosos.
E eu continuo tricotando palavras e sonhos no meu teclado…
Por aqui tenho andado, umas vezes ficando, outras passando.
E sempre esta perplexidade do valor da vida.
Será que a vida tem valores diferentes em culturas diferentes? E a morte? Também assim o será?
A minha alma vai doendo quando vejo uma criança ou outra pessoa a morrer sem razão aparente – injustificada, até.
Faltou o dinheiro para os medicamentos, para o transporte para o hospital, para o tratamento. Quantas vezes dinheiro mínimo – o equivalente a uma grade de cervejas. E o desespero toma conta das pessoas e depois…. vem a aceitação do inevitável, evitável!
E transporta-se aquele ser, que já era, numa carrinha de caixa aberta, coberto com algum pano da família – e assim vai, calcorreando os buracos da cidade que já não o magoam. Se os olhos estivessem abertos de ver, veriam as folhas dos mangueiros a deslizar e a luz do sol passando e acariciando o pano. Mas já nada importa. Apenas e só aquela viagem de não retorno.
E depois vem o "tchoro" (funeral) e aí a festa se faz. Aparecem os animais que vão ser sacrificados, para honrar os mortos e para deleite de toda a comunidade, por vezes aparece álcool e são centenas e centenas de pessoas que vêm homenagear o falecido. Ouvem-se os tambores e dança-se.
A tristeza casa com a alegria. Casamento estranho esse.
Olho para os pobres animais. Que olhares tristes. Estão sentenciados de morte. Tentam não avançar – eles sabem o que os espera. E assim… caminhando forçados lá vão as vacas, as cabras, as galinhas – bem querendo fugir à faca que os espera. Desvio o meu olhar.
O meu luto fica mais carregado.